As armadilhas em camuflados potes de ouro vão prendendo nossos pés pelos caminhos. E só notamos que as estradas eram marcadas quando os pés doídos não conseguem mais se soltar do chão, o peso arrastado de nossas esperanças e projetos.
É aí que nos perguntamos: porque aconteceu comigo? Logo eu?
Abrindo as gavetas de memórias certamente encontraremos pontas de barbante soltas em labirintos criados que não soubemos deslindar. Minotauros em capiciosas madornas esperam as Iphigênias em suas virgens inocências, enquanto a história vai se articulando e fechando capítulos. Arapucas e labirintos. Nós, crentes e potentes a desafiar a lógica da existência que desfila diante de nossos pobres ricos olhos.
Só que a vida nos encantoa em becos muito estreitos e sem escape. Vai se nutrindo de nossos apegos e vaidades esperando que um dia possamos desvendar um pouco dos seus sinais e acordar para novas estradas. Pacientemente aguardamos dias de despertar lavados, quando letargias e desapontos escorrerão pelas valas dos rescaldos e sucatas, descartados os sonhos doentes que havíamos acumulado. Mas nós queremos mais. Permanecemos meninos do mundo catando vidrilhos coloridas nos entremeios de pedras para formar castelos, roubando nos quintais das nossas ruas mais íntimas os frutos dos pecados e das redenções como crianças atrevidas, pois sonhamos.
Mas muito pouco deve realmente acontecer.
Renasceremos a cada domingo com as mesmas esperanças germinando sobre pântanos, o peito acelerado hospedeiro de cansaços e adrenalina. O chão antecipando terremotos e violências, a vida escapando pelas brechas das impotências.
E a fé na existência escoando pelos velhos canais dos esgotos subterrâneos, constantes, escuros e crescentes, enquanto nossas mãos deslizam sobre o teclado de uma máquina interessante.
Eu, os outros, a real solidão, nossas escolhas atropelando alegrias com pouco uso. E quem mais a gravitar respeitosamente sobre os nossos pomares de frutos e flores? Quem jamais visitaria nossos amados recantos de águas e pedras sem lhes arrancar pedaços? A temida solidão alcovitando segredos de ser feliz, nós já marcados, meio rotos, mais ainda procurando potes e arco-íris.
Uma vida inteira saltando armadilhas, desviando de raios, esperando chuvas passar. Mas é assim que somos, crentes, humanos, obstinados. Até o fim, quando nos perguntamos: Mas como foi que tudo aquilo aconteceu?
InêsNeves, todos os direitos reservados.
TEMPOSDEBRASILEMUNDO
Tempos em que assisto aos estados de passagem para um momento muito melhor. Tempos em que tento compreender o ser humano dentro da minha cidade, do meu país, do planeta. Tempos de impotência establecida ou de tomadas de posição?
Certamente tempos de acreditar.
Certamente tempos de acreditar.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Falar de samba, carnaval e esperança, sim. De um Brasil “onde canta o sabiá” e de um planeta cheio de promessas, nos faria mais alegres e complacentes. Mas nesse campo as batalhas acontecem, realidades são repensadas e os corações não batem só de amor.
Que o humor, a compaixão e a poesia sobrevivam, apesar de tanto e apesar de tudo, você e eu nas nossas buscas e reflexões.
Que o humor, a compaixão e a poesia sobrevivam, apesar de tanto e apesar de tudo, você e eu nas nossas buscas e reflexões.
DESASTRAR
DESASTRE. Des/astrar, contrariar os astros. E lá de cima, pôr-do-sol, saindo do celeste o airbus nem aterrisa. Desastradamente perde o rumo e até queria se arremeter de volta aos astros, mas se mete em prédio de concreto direto e bravo e incontinente se arrebenta em impacto e chamas..
Explosão, calor e línguas de fogo consumindo tudo.Cinco, seis, sete segundos? Mortalha incandescente libertando almas de matérias impotentes. Negro e rubro manto calando espantos entre panos e metais, mil graus incinerando histórias, sonhos, paixões, encantos e desencantos, desacatos de um mesmo irreverente destino, idades e buscas tão diversas.
Não eram meus amigos, meus parentes, nem era você. Mas ficaram sim, parados em minha garganta me tirando o ar. Embolados no meio da minha barriga, plantados em minha cabeça que dói. Desfigurados bonecos de carvão a nos falar dos tortos bonecos quase vivos, espelho meu, em que nos tornamos nós.
Procuram-se culpados, responsabilidades, inconseqüências, falhas mecânicas ou humanas, mas o que reinará nos bastidores das tragédias que nos arrebatam e assombram? “Que país é esse?” Que planeta esse? Expurgo ou salvação, o que não provocamos, naturalmente permitimos.
Nada por acaso. Um descaso, um descrédito, uma desilusão e os fragmentos de um país de Hidras comandantes vão montando mosaicos de terror que passam a encenar no quotidiano os pequenos assassinatos que se repetem e se tornam corriqueiros. E a bala perdida, o cidadão moribundo em filas de espera, os nossos representantes de si próprios, inversão de valores, a violência institucionalizada e uma juventude inteira gravitando em seus mundos autistas das máquinas, sexo, fumos e cheiros. Nós a cada dia mais pobres de ambições, de leveza de alma, de letras e música e conhecimento e do real pão da vida, que passam ao largo e tristemente se constituem em tesouros do acervo de uma elite.
Aquele foi mais um desastre aéreo, apenas uma conta desse rosário de inconseqüências que nos tiram a paz e o fôlego, não pelas tragédias que escapam ao nosso entender e controle ou as que nos caem sobre as cabeças sem nos deixar escape, mão de palmatória de destinos marcados. Mas do simplismo e imediatismo que regem uma nação, uma família, um indivíduo e que, por linhas tortas ou retas acabam por abrir brechas para o inconsolável choro dos lesados que ecoa distante dos ouvidos mocos dos regentes delirantes desse caos, desse chão que já sabíamos, onde se plantando tudo dá.
Assim na terra como no céu. Insistimos em contrariar os astros, em desastrar nossos destinos. Vidas vão se perdendo não apenas em explosões e muros de concreto a incinerar destinos. E nosoutros? Vamos escorrendo pelos drenos da impotência e da desilusão e também morremos, só que mais lentamente, nos torturantes balcões dos quasipossíveis e de decrepitude de alma.
InêsMeloneves, todos os direitos reservados.
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