TEMPOSDEBRASILEMUNDO

Tempos em que assisto aos estados de passagem para um momento muito melhor. Tempos em que tento compreender o ser humano dentro da minha cidade, do meu país, do planeta. Tempos de impotência establecida ou de tomadas de posição?
Certamente tempos de acreditar.



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

DESASTRAR



Três anos se passaram. Certamente nem um minuto se passou para os que sentiram a espada do destino ceifando afetos.


DESASTRE. Des/astrar, contrariar os astros. E lá de cima, pôr-do-sol, saindo do celeste o airbus nem aterrisa. Desastradamente perde o rumo e até queria se arremeter de volta aos astros, mas se mete em prédio de concreto direto e bravo e incontinente se arrebenta em impacto e chamas..
Explosão, calor e línguas de fogo consumindo tudo.
Cinco, seis, sete segundos? Mortalha incandescente libertando almas de matérias impotentes. Negro e rubro manto calando espantos entre panos e metais, mil graus incinerando histórias, sonhos, paixões, encantos e desencantos, desacatos de um mesmo irreverente destino, idades e buscas tão diversas.
Não eram meus amigos, meus parentes, nem era você. Mas ficaram sim, parados em minha garganta me tirando o ar. Embolados no meio da minha barriga, plantados em minha cabeça que dói. Desfigurados bonecos de carvão a nos falar dos tortos bonecos quase vivos, espelho meu, em que nos tornamos nós.
Procuram-se culpados, responsabilidades, inconseqüências, falhas mecânicas ou humanas, mas o que reinará nos bastidores das tragédias que nos arrebatam e assombram? “Que país é esse?” Que planeta esse? Expurgo ou salvação, o que não provocamos, naturalmente permitimos.
Nada por acaso. Um descaso, um descrédito, uma desilusão e os fragmentos de um país de Hidras comandantes vão montando mosaicos de terror que passam a encenar no quotidiano os pequenos assassinatos que se repetem e se tornam corriqueiros. E a bala perdida, o cidadão moribundo em filas de espera, os nossos representantes de si próprios, inversão de valores, a violência institucionalizada e uma juventude inteira gravitando em seus mundos autistas das máquinas, sexo, fumos e cheiros. Nós a cada dia mais pobres de ambições, de leveza de alma, de letras e música e conhecimento e do real pão da vida, que passam ao largo e tristemente se constituem em tesouros do acervo de uma elite.
Aquele foi mais um desastre aéreo, apenas uma conta desse rosário de inconseqüências que nos tiram a paz e o fôlego, não pelas tragédias que escapam ao nosso entender e controle ou as que nos caem sobre as cabeças sem nos deixar escape, mão de palmatória de destinos marcados. Mas do simplismo e imediatismo que regem uma nação, uma família, um indivíduo e que, por linhas tortas ou retas acabam por abrir brechas para o inconsolável choro dos lesados que ecoa distante dos ouvidos mocos dos regentes delirantes desse caos, desse chão que já sabíamos, onde se plantando tudo dá.
Assim na terra como no céu. Insistimos em contrariar os astros, em desastrar nossos destinos. Vidas vão se perdendo não apenas em explosões e muros de concreto a incinerar destinos. E nosoutros? Vamos escorrendo pelos drenos da impotência e da desilusão e também morremos, só que mais lentamente, nos torturantes balcões dos quasipossíveis e de decrepitude de alma.

InêsMeloneves, todos os direitos reservados.

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